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A Resolução CONARQ nº 51/2023 explicada: o que mudou, o que ela exige e o que os órgãos públicos ainda não perceberam

09 de julho de 2026
RDC-ArqCONARQ Resolução 51preservação digitalgovernança documental
Foto: Tima Miroshnichenko / Pexels

Em setembro de 2023, o CONARQ (Conselho Nacional de Arquivos) publicou a Resolução nº 51, atualizando as Diretrizes para a Preservação Digital — a Versão 2 do RDC-Arq. Nove meses depois, a maioria dos órgãos públicos federais e grandes empresas ainda trata essa resolução como um comunicado genérico de compliance, quando na verdade ela redefiniu o que preservação digital significa no Brasil.

Não é alarme. É realidade regulatória. E há uma diferença crucial entre institucionalizar um processo porque uma resolução exige e implementá-lo com rigor suficiente para sobreviver a uma auditoria — ou, pior, a uma crise de perda de dados.

Este post desfaz a névoa que envolve RDC-Arq 2.0: separa o que é genuinamente novo do que apenas foi consolidado, identifica onde a negligência é maior e conecta cada exigência ao risco real que sua instituição enfrenta hoje.

O que é RDC-Arq e por que sua instituição deveria estar preocupada agora

RDC-Arq significa Referência de Diretrizes para Conformidade da Preservação Digital. É o padrão brasileiro, alinhado a normas internacionais como ISO 16363 e OAIS, que define como órgãos públicos e instituições custodiadoras de documentos digitais devem preservar dados de forma fidedigna, íntegra e acessível indefinidamente.

Antes de 2023, a Versão 1 era mais uma recomendação. Após a Resolução CONARQ nº 51, virou obrigatoriedade regulatória para:

  • Órgãos da administração pública federal e estadual
  • Empresas que lidam com documentos de interesse público (bancos, operadoras telecom, etc.)
  • Qualquer custodian que afirme preservar documentos de valor probatório ou histórico

O problema? A maioria confunde preservação digital com backup. Backup é cópia. Preservação é garantia de acesso, integridade e autenticidade ao longo do tempo, independentemente de mudanças tecnológicas. É uma negligência cara.


O que realmente mudou na Versão 2 (e o que não mudou, mas agora é inegociável)

A Versão 2 do RDC-Arq não é uma revolução, mas uma consolidação com dentes. Vamos aos pontos críticos:

1. Governança de dados documentais explícita

Antes era recomendado ter políticas. Agora é mandatório documentar:

  • Quem é responsável por quê (matriz RACI clara)
  • Critérios de seleção e descarte de documentos
  • Plano de continuidade para ambientes de preservação
  • Auditoria interna periódica e rastreamento de acessos

A maioria das instituições que visitamos tem isso em PowerPoint, não em prática. Há um vazio de governança real entre a política oficial e o chão-de-fábrica.

2. Metadados obrigatórios e estruturados

RDC-Arq 2.0 deixou claro: não é suficiente guardar o arquivo. É preciso registrar e manter:

  • Proveniência (quem criou, quando, por quê)
  • Contexto de criação (formato original, aplicação usada)
  • Trilha de custódia (quem tocou, quando, como)
  • Cadeia de preservação (quais transformações foram aplicadas)

Isso demanda infra de gestão de metadados — não é planilha Excel. É banco de dados certificado, com versionamento e integridade criptográfica.

3. Autenticidade e integridade como fundamento legal

A Versão 2 amarrou preservação digital ao direito probatório. Um documento preservado precisa:

  • Comprovar origem e autoria (assinatura digital ou selo de custódia)
  • Demonstrar integridade (hashes, blockchain ou similar)
  • Ser auditável (logs imutáveis)

Não é só "guardo e entrego". É "guardo de forma que um juiz acredite".

4. Infraestrutura resiliente como requisito explícito

Agora não basta um disco rígido na sala de TI. RDC-Arq 2.0 exige:

  • Múltiplas cópias em localizações geográficas distintas
  • Testes periódicos de recuperação (disaster recovery real)
  • Documentação de capacidade e ciclos de vida de mídia
  • Plano de migração tecnológica documentado

Vários órgãos públicos que auditamos guardam tudo em um NAS sem replicação. Tecnicamente, estão em não-conformidade declarada.

Preservação digital não é um custo de TI. É um custo de risco regulatório, memória institucional e soberania sobre seus próprios dados.

Onde a maioria falha (e por que ninguém fala sobre isso)

Auditamos duzentas e tantas instituições em conformidade RDC-Arq nos últimos dois anos. Os padrões de falha são consistentes e previsíveis.

Ponto de falha #1: Confundir LGPD com preservação

Muitas organizações implementam conformidade LGPD (direito ao esquecimento, pseudonimização) e acham que já cobrem preservação digital. É o oposto. LGPD exige remover dados. Preservação exige proteger indefinidamente.

A tensão é real: você precisa ser capaz de anonimizar um documento sob demanda sem quebrar sua integridade. Isso não é trivial. A maioria não tem solução para isso.

Ponto de falha #2: Documentação órfã

Políticas de preservação são escritas por consultores, aprovadas por C-level, e morrem na prateleira digital. Ninguém na ponta sabe que existem. Resultado: práticas inconsistentes, sem auditoria, sem conformidade real.

RDC-Arq 2.0 agora exige auditoria interna periódica. Você tem um processo mensalizado para isso? A maioria, não.

Ponto de falha #3: Backup ≠ Preservação

Um diretor de TI implementa backup diário em nuvem pública e marca conformidade RDC-Arq como "concluída". O problema:

  • Backup em AWS ou Azure é jurisdição estrangeira (soberania comprometida)
  • Não há garantia de formato futuro (obsolescência)
  • Não há auditoria de acesso ou integridade certificada
  • Cloud é custódia, não preservação

Ponto de falha #4: Falta de certificação e rastreabilidade

RDC-Arq 2.0 recomenda (e em breve exigirá) que ambientes de preservação implementem o modelo OAIS e sejam auditados conforme a ISO 16363. Quantos órgãos públicos têm repositório auditado e certificado conforme a ISO 16363? Poucos. Muito poucos.

Sem isso, qualquer auditoria interna ou externa expõe o acervo a questionamento legal sobre integridade.

Ponto de falha #5: Ignorar a geração contínua de dados

RDC-Arq é aplicado como problema histórico: "Vamos preservar nosso acervo antigo". Na verdade, é um fluxo contínuo. Todo e-mail, relatório, contrato, decisão gerada hoje precisa entrar em ambiente de preservação com metadados completos.

Isso demanda automação. Processamento manual em escala é inviável — e errado.

Representação visual de camadas de conformidade em preservação digital: governança, metadados, infraestrutura, auditoria
Foto: Markus Winkler / Pexels

Checklist de conformidade: onde sua instituição está agora

Responda com sinceridade. Se não conseguir confirmar em execução real (não em documento), marque como não-conformidade.

Governança:

  • Política de preservação digital documentada, atualizada nos últimos 12 meses e conhecida por donos de processo
  • Matriz de responsabilidades (RACI) para preservação, custódia e acesso
  • Ciclo de auditoria interna definido e em execução (trimestral ou semestral)
  • Plano de resposta a incidentes de perda ou corrupção de dados

Metadados:

  • Esquema de metadados definido (Dublin Core, PREMIS ou o esquema do e-ARQ Brasil) e aplicado a novos ingressos
  • Rastreamento automático de proveniência (quem criou, quando, sistema)
  • Registro de transformações (conversões, migrações) documentado
  • Acesso a metadados auditado e imutável

Infraestrutura:

  • Múltiplas cópias de documentos preservados em locais geograficamente distintos
  • Testes de recuperação (restore) executados e documentados (últimos 6 meses)
  • Plano de migração tecnológica para combater obsolescência de formato
  • Ambiente de custódia certificado ISO 16363 ou seguindo rigorosamente OAIS

Segurança e Acesso:

  • Documentos autenticados (assinatura digital, selo de custódia ou hash verificável)
  • Integridade verificável (cadeia de custódia documentada, logs imutáveis)
  • Acesso monitorado, com trilha de auditoria
  • Infraestrutura em território brasileiro (soberania de dados)

LGPD + Preservação:

  • Processo claro para anonimização ou removals sem comprometer integridade do acervo
  • Consentimento e base legal registrados como metadados
  • Capacidade de demonstrar conformidade simultânea com direito ao esquecimento e preservação

O custo real de não agir (e por que a maioria adia isso)

Há uma ilusão no setor público e enterprise: que conformidade é um problema que pode ser adiado. Até uma auditoria acontecer. Ou uma crise.

O custo de não-conformidade RDC-Arq não é abstrato:

Risco regulatório

  • CGU (Controladoria-Geral da União) e TCU (Tribunal de Contas da União) já incluem preservação digital em auditorias de órgãos federais
  • Falha em RDC-Arq é achado auditável, com potencial de recomendação legal
  • Para estatais, impacta governança corporativa

Risco de perda institucional

  • Acervo corrompido ou inacessível é documentação perdida — sem recourse
  • Decisões, processos, memória institucional desaparecem
  • Impacto em pesquisa, replicabilidade, cumprimento de deveres públicos

Risco jurídico

  • Documento não-preservado adequadamente pode ser questionado como prova
  • Responsabilidade civil e administrativa por perda de acervo
  • Em litigância, falta de trilha de custódia prejudica defesa

Risco de sovranidade

  • Dados em cloud público estrangeiro = jurisdição estrangeira
  • Compliance com autoridades brasileiras fica comprometido
  • Soberania de dados é tema crítico para estado, bancos, operadoras

Por que adiamento é tentador:

  • Preservação digital não gera receita imediata
  • Parece problema de "risco futuro", não presente
  • Demanda investimento em infra (custoso)
  • Exige mudança de cultura (automação, governança, auditoria)

Mas o adiamento custa mais. Recuperar um acervo degradado é exponencialmente mais caro que preservá-lo desde o início.


Próximos passos práticos para conformidade real (não apenas formal)

Se você reconheceu sua instituição em alguns dos pontos de falha acima, aqui estão os movimentos concretos:

Fase 1: Auditoria de linha de base (30–60 dias)

  1. Mapeie onde estão seus documentos (sistemas, acervos, backups)
  2. Classifique por valor probatório, legal e histórico
  3. Avalie conformidade atual contra checklist RDC-Arq
  4. Identifique lacunas críticas (falta de metadados, infra insuficiente, etc.)

Isso não é report genérico. É diagnóstico específico do seu acervo e infraestrutura.

Fase 2: Design de governança (60–90 dias)

  1. Defina política de preservação documentada (quem, responsável por quê)
  2. Escolha padrão de metadados (Dublin Core como baseline)
  3. Desenhe fluxo de ingresso: como novos documentos entram em ambiente certificado
  4. Estabeleça ciclo de auditoria interna (trimestral, no mínimo)

Fase 3: Infraestrutura certificada (120–180 dias)

  1. Implemente ambiente de custódia em infraestrutura soberana (on-premise ou cloud brasileiro)
  2. Configure múltiplas cópias e disaster recovery testado
  3. Integre automação: capturas de metadados, detecção de formatos, alertas
  4. Certifique o repositório conforme a ISO 16363

Fase 4: Remediação de acervo (contínuo)

  1. Retroaja documentos críticos históricos com metadados e certificação
  2. Implemente anonimização/removals em conformidade LGPD sem quebrar integridade
  3. Realize testes de recuperação e documente

Cada fase depende de decisores: TI, compliance, arquivo, jurídico, segurança. Alinhamento é crítico.

Diagrama de fluxo de implementação de conformidade RDC-Arq com fases e stakeholders
Foto: Tima Miroshnichenko / Pexels

O diferencial de quem já está adiante

As instituições que reconhecemos como mais maduras em RDC-Arq têm um padrão comum:

  • Preservação como política explícita, não como subproduto de TI
  • Automação total de ingresso, sem processamento manual em escala
  • Infraestrutura soberana certificada, com auditoria externa
  • Integração com IA para extração de contexto, melhorando metadados automaticamente
  • LGPD + preservação reconciliadas, com capacidade de anonimizar sem corromper
  • Auditoria interna contínua, não episódica

Essas instituições enfrentaram a mesma dor que a sua. A diferença é que decidiram que não-conformidade não era opção — e investiram em solução.

Conformidade RDC-Arq é investimento em soberania institucional, não custo de compliance.

Conclusão: o relógio está marcando

A Resolução CONARQ nº 51/2023 não é uma surpresa que desaparecerá. É a Lei de Preservação Digital Brasileira — e seu cumprimento será escalado em auditorias, processos licitatórios e conformidade corporativa.

Os órgãos públicos que não se movem agora enfrentarão achados auditáveis em 2024 e 2025. As empresas que adiam estarão em desvantagem competitiva quando contratos exigirem certificação RDC-Arq como pré-requisito.

O que mudou de verdade em RDC-Arq 2.0 não é a visão — é a obrigação de implementá-la. E a realidade é que a maioria ainda não começou.

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